Demorou, mas eu sabia que inevitavelmente acabaria acontecendo. Foi no supermercado, fim de tarde de domingo. Encontramos um casal de velhos amigos da família e veio a pergunta, acompanhada daquele sorriso no rosto: ”e o nenê?”. Eu congelei, não consegui esboçar qualquer reação. Apesar de achar que estava preparada para este momento, descobri que ainda preciso de tempo para encontrar a resposta. Ouvi outras duas vezes seguidas aquela voz curiosa por saber notícias sobre a nossa filha, achando que por algum motivo, no meio de todo o barulho, eu não tinha escutado.
A verdade é que eu fiquei tão descompensada com o questionamento que até senti meu corpo tremer. Foram frações de segundo que separaram a pergunta da resposta que eu não consegui dar. Minha avó se encarregou da missão de, em voz baixa e com grande discrição, dizer rapidamente que eu perdi o nenê. Falar o que realmente se passou, nessa situação, só iria constrangê-los. Ouvir sobre a perda de um bebê não nascido, ainda que doloroso, acaba realmente sendo encarada com mais naturalidade pelas pessoas. Provavelmente os detalhes ficaram para outro dia.
Da mesma forma que eu continuei a conversa, como se nada tivesse acontecido, percebi que o casal fez o mesmo. Até agora, noite de segunda-feira, porém, não me recuperei da pergunta desconcertante. Foi com se, de alguma maneira, eu tivesse perdido mais um pedacinho da Carol.
Me acostumei com a típica cena de estar em uma festa e pegar pessoas olhando para mim e, daquele jeito meio tentando disfarçar - como se eu não estivesse percebendo -, cochichar algo para quem está ao lado. A sequência é sempre a mesma: aquele conhecido te vê, esboça um sorrisso, faz um tchauzinho e segundos depois comenta algo com um amigo ou familiar, que, invariavelmente, por mais discreto que tente ser, lança aquele olhar de identificação e balança a cabeça em sinal de positivo. Acho que isso não é novidade, afinal, todo ser humano já passou por isso.
No meu caso, sempre soube que boa parte dos comentários vinha acompanhado da descrição que me cabe: “aquela menina é a filha da Tova”. Para quem conhece a minha história, não é necessário grandes explicações para entender a curiosidade que faz com que o receptor da informação rapidamente procure localizar o alvo do comentário, ou seja, eu. Percebo agora, porém, uma reação em geral mais carregada pelo sentimento de pena quando pego esses olhares conhecidos. É natural, eu faria o mesmo se o personagem fosse outro qualquer e eu descobrisse o novo capítulo de uma trajetória atípica.
O fato é que esta noite tive um sonho no mínimo curioso – e bem real. Eu escutava a minha narração de um post que me aconselhava a não ligar para o estranhamento que causamos, eu e o Isi, principalmente por não nos privarmos do direito de dançar e nos divertir, apesar de passado tão pouco tempo da morte da Carol. O texto frisava ainda que não deveríamos permitir que as pessoas, em seus comentários particulares, se referissem a nós como “coitados” e que estamos no caminho certo.
Para uns pode soar com uma resposta do meu subconsciente, enquanto para outros sugerir um recado de natureza sobrenatural. Vai da crença de cada indivíduo, como sempre digo. Eu continuo acreditando, de um jeito ou de outro, em mensagens especiais, seja lá de onde elas partem. A nossa maneira de sentir essa dor e lidar com ela pode surpreender quem nos observa a uma certa distância. Acredito sinceramente que nós devemos aproveitar os bons momentos que a vida nos proporcionar, seja lá o que virá.
Assim como sou orfã desde cedo, sou a mãe que perdeu a filha, e por isso me dou ao direito de acreditar que há adjetivos melhores para me descrever do que um simples “coitada”.
Obs.: Eu não consigo lembrar mais do sonho em detalhes. Queria ter transcrito o texto do jeito que ele chegou à mim. Quem mandou deixar para escrever o post à noite, ao invés de digitar logo que acordei…
Hoje foi um dia parecido com muitos que vivemos nos últimos anos: acordar, pastel na feira, manicure, churrasco com os amigos, cabelereiro, farmácia, festa de casamento…o dia foi cheio, e mesmo assim parece que algo estranho ainda está presente dentro das nossas cabeças. É aquele vazio que preenchemos com perguntas como “Será que eu viria neste churrasco com a Carol?” ou “Quando será que vou trazer a Carol para comer pastel comigo?”.
Andando pela Vila Madalena encontramos uma loja nova de roupinhas de criança, e como precisávamos comprar um presente resolvemos entrar. É estranho conseguir entrar neste tipo de loja depois de ter vivido a experiência de comprar as coisas para minha própria filha, e não dá para fugir do mesmo pensamento que está sempre rondando nossas cabeças: “Se a Carol estivesse aqui eu iria comprar este vestidinho para ela…”. Compramos o presente, conhecemos pessoas muito simpáticas e passamos momentos bastante agradáveis na loja, e esperamos continuar evitando passar para as pessoas algum tipo de mágoa ou ressentimento pelo que passamos.
Ando pensando em abrir a porta do quarto que estava sendo preparado para a Carol. É bobagem achar que olhar móveis, paredes, roupas ou qualquer outro objeto possa trazer lembranças dolorosas, afinal, ainda não inventaram uma fórmula mágica para apagar flashes de bons e maus momentos da memória.
Na verdade ver essa porta, sempre trancada, não muda absolutamente nada. Pelo contrário, é uma visão que chega a ser mais cruel do que olhar diretamento para o berço, a cadeira e o papel de fundo cor de rosa e bolinhas brancas. Eu observo a porta branca fechada e sei exatamente, em detalhes, o que está atrás dela. Evitar abri-la é o mesmo que evitar olhar para dentro de mim mesma.
A Carol não está nas pequenas coisas que ficaram escondidas. Queria eu que fosse possível sofrer menos por não ter esse contato visual com o que compramos e com os lindos presentes que ela ganhou, mas nada pode mudar o fato de que está tudo aqui, registrado na minha cabeça. Pena que não existe uma porta interna que eu possa trancar e assim evitar que o meu coração tenha contato com esse bendito cérebro que não me deixa esquecer.
Nesta manhã recebemos uma visita inesperada. Uma agente do posto de saúde apareceu no prédio onde moramos às 9h30 para levantar mais informações sobre a morte da Carol. Sim, a nossa corujinha vai, literalmente, virar estatística - parece até que o IBGE leu o post que publiquei há alguns dias sobre a Carol ter virado mais um número para o Ministério da Saúde. Nada contra qualquer tipo de levantamento, mas confesso que o tipo de abordagem me deixou um pouco abalada.
Desde que a perdemos a nossa filha não houve qualquer contato, seja do hospital ou de órgão de saúde, para nos dar qualquer orientação ou mesmo explicar as causas da morte dela. Salvo a amizade de um dos neonatologistas, estaríamos ainda buscando uma resposta. Foi esse médico que atenciosamente nos passou o resultado, por telefone, dos exames, já que a Carol faleceu antes que o motivador da infecção fosse apurado. Até agora, porém, não recebemos qualquer notificação oficial do São Luiz. Na minha ignorância de mãe gostaria de ter o direito de ser informada sobre as causas dessa perda.
Não sei o que a agente de saúde irá nos perguntar, já que estavámos saindo para trabalhar quando ela apareceu, mas estou ansiosa por descobrir qual será o rumo dessa conversa. Agora é esperar o contato por telefone para agendar a entrevista, na esperança de que, de alguma forma, possamos contribuir com esse mapeamento sobre mortalidade neonatal e talvez dar a nossa pequena ajuda para que outros pais não passem pela mesma situação que nós.
Estou tentando organizar a minha vida de forma prática, sem medo do que virá. Trabalhar, progamar atividades para preencher os finais de semana, inventar coisas para fazer em casa… Enquanto o meu cérebro continua trabalhando a todo vapor, o meu coração às vezes parece que está ficando para trás. A verdade é que procuro ocupar o meu tempo ao máximo para não ter momentos ociosos que me dêem o direito de olhar para aquele período onde tudo se encaixava com perfeição sem qualquer esforço. No final, depois de tanto raciocinar, hoje eu preciso desesperadamente parar para chorar por essa vida sem a Carol, mas as lágrimas agora caem lentamente e com dificuldade.
É como a música do The Who, Too Much of Anything:
“…Acho que esse cérebro pensou muito,
Procurando, tentando encontrar o apoio,
Acho que esse coração sangrou com frequência uma vez
Desta vez sangrou um pouco demais…” (Pete Townshend)
Uma das primeiras decisões que tomamos ao descobrir a gravidez da Paula foi que iríamos trocar o carro por outro um pouco maior, afinal nós e nossa corujinha precisaríamos de mais conforto e espaço.
Fizemos várias pesquisas, avaliações e test-drives em vários modelos que gostamos e no final chegamos a duas opções totalmente distintas: a razão, optando pelo modelo mais econômico e popular, ou a emoção, optando por outro cujo design era totalmente nossa cara, mas que teria custos maiores de manutenção. O valor de ambos era praticamente o mesmo, mas a diferença no consumo de combustível e nos custos de manutenção eram bastante grandes.
Depois de vários dias pensando, calculando e conversando, conseguimos chegar à conclusão final com a ajuda da Carol. A pergunta final foi: “Se fôssemos crianças, qual carro gostaríamos que nossos pais tivessem?”. E foi pensando na nossa bebê curtindo o carro junto com a gente, olhando o mundo pelo teto solar, que decidimos pela emoção. Aquele seria o carro da Carol, e portanto valia a pena gastarmos mais para que ela tivesse esta experiência conosco.
O carro novo chegou dia 18 de junho de 2009. A Carol chegou dia 1 de Setembro, e na correria do parto prematuro conseguimos até instalar a cadeirinha no carro, já que a Carol nasceu bem e deixaria o hospital em poucos dias.
A cadeirinha não está mais lá, assim como a Carol está conosco em nossas memórias e em nossos corações. E o carro da Carol nos ajuda a lembrar de momentos bons que passamos, e apesar da dor que sentimos, ainda vão voltar.
De todas as dificuldades que temos enfrentado, a maior delas ainda é conviver com a sensação de que ficou faltando um pedaço depois que perdemos a Carol. Por mais estranho que possa parecer, eu nos observo como um par de vasos que depois de quebrados foram tão bem remendados que à primeira vista a diferença é quase imperceptível. Para aqueles que sabem do incidente, o reparo é evidente, mas ainda assim beira a perfeição. Mas como tudo que quebra, por melhor que seja o trabalho de recuperação, sempre sobram aqueles buraquinhos microscóspicos que não podem ser preenchidos. No final das contas, no geral está tudo no seu devido lugar.
Divulgar o blog não foi uma decisão fácil, e também não foi algo pensado. Já tínhamos comentado sobre isto antes, e parece que naturalmente o assunto ia embora sem maiores consequências, mostrando que não estávamos prontos para fazê-lo.
Na semana passada estávamos conversando sobre o blog (mais especificamente sobre este post), quando a Paula, de repente, disse “acho que agora podemos mostrar nosso blog, as lembranças da Carol e nossos sentimentos”. Não pude discordar dela, e em poucos minutos já tínhamos escrito o e-mail que enviamos para nossos amigos e familiares.
Uma das coisas que gostaria de passar com este blog é uma visão mais direta do que está acontecendo conosco. A maioria das pessoas não se sente confortável em falar diretamente sobre isto, e nós também não sabemos como e quando tocar no assunto sem sermos indelicados. Por fora parece que está tudo como estava antes da Carol: trabalho, casa, família, contas, amigos, festas, problemas, soluções…mas por dentro está tudo diferente, e queremos dividir isto com as pessoas que amamos e que sabemos (muito mais agora) que nos amam.
Realmente as respostas que recebemos foram maravilhosas, e vamos continuar contando aqui um pouquinho do que vem sendo nossa vida com a chegada e a partida da Carol. Ficamos super emocionados, e com certeza mais felizes ontem.
Expor sentimentos não deveria ser tão difícil. O receio de que esse sofrimento, tão descarado e sincero, pudesse maltratar as pessoas que estão a nossa volta fez com que hesitássemos algumas vezes em divulgar o blog. Demorou um pouco, é verdade, mas foi bom dar tempo ao tempo.
Não observo a tristeza com preconceito, pelo contrário, acho que saber conviver com esse peso e ainda conseguir sorrir é uma grande conquista. E é assim que vejo esse espaço, uma página que guarda recordações das muitas lágrimas que já caíram, mas aonde cabem muitos sorrisos – às vezes misturados a um choro de alívio para lavar a alma. Estamos trilhando nosso caminho, com a Carol no coração, graças a muitos amigos e familiares queridos que nos dão a cada dia um novo motivo para seguir em frente. Os comentários de apoio recebidos nesta segunda-feira, em especial, fizeram com que a vida ganhasse mais cor. É muito bom poder compartilhar nossas reflexões com vocês. Obrigada!