Tudo no lugar

fevereiro 9, 2010 por pensandonacarol

Uma hora teríamos que encarar mais esse desafio. O momento chegou nesta manhã. Durante os meses de espera pela chegada da Carol imaginamos, projetamos e concluímos o desenho de um quarto dos sonhos para a nossa filha, mas o quarto permaneceu vazio durante toda a gravidez. As primeiras mudanças só aconteceram logo que a Carol nasceu, com a colocação às pressas do papel de parede rosa com bolinhas brancas em uma das paredes e em parte de outra, deixando sem preenchimento o local onde seria instalado o armário. Logo depois veio o berço e a poltrona de amamentação, enquanto ainda estávamos no hospital.

Não deu tempo de colar os adesivos pensados especialmente para ela nem receber os móveis projetados pelo marceneiro. Estava tudo pronto para estar aqui quando a nossa corujinha estivesse pronta para vir para casa. Simplesmente não deu.

Hoje o armário foi colocado na parede a ele reservada. Vieram junto a cômoda e o criado mudo. E eu, depois de cinco meses, me enchi de coragem e entrei no quarto. O Isi veio atrás. Achei que seria mais doloroso, mas tive uma sensação estranha de libertação. Escorrerram algumas lágrimas pelo meu rosto, nada que me tirasse a certeza de que estava tudo no seu devido lugar. A Carol realmente não está guardada nos objetos que ficaram, ela está ligada a nós por laços que a morte não desata. 

Quanto aos  adesivos, acho que eles não serão colados nas duas paredes brancas que restaram, até por que esses desenhos estão muito bem estampados no blog, como tinha que ser. Talvez eles preencham mais tarde um espaço cheio de amor para fazer outras crianças sonharem. As paredes do quarto, por sua vez, um dia ganharão outras cores e formas ainda mais especiais sob medida para elas.

Só uma dica

fevereiro 8, 2010 por pensandonacarol

Logo após a morte da Carol uma das frases que mais ouvi foi “pelo menos ela não sofreu”. Eu realmente acredito que da curta sequência de fatalidades, foi “menos pior” saber que as complicações da klebsiella não se arrastaram por muito tempo. Em poucas horas a nossa filha apagou e voltou a ser anjo. Não existem, porém, palavras de conforto que ajudem no momento em que o impacto da perda toma conta de nós. O que qualquer um espera quando vive o luto, mesmo depois de algum tempo, é a compreensão da dor, sem que ela seja minimizada ou justificada.

Vida que segue

fevereiro 8, 2010 por pensandonacarol

Li há pouco uma reportagem antiga da revista Marie Claire sobre luto entitulada A vida de quem fica. Cheguei à materia em questão por acaso, se é que ele existe. Foi como um remédio de alívio imediato. Na verdade por mais pessoas que tenhamos ao lado para nos apoiar, sinto falta de ter quem compartilhe dessa mesma dor. Mais do que isso, entenda como em um estalar de dedos passamos das risadas ao choro e depois das lágrimas podemos retomar os sorrisos, tendo em todas as fases desse ciclo vicioso a mesma abundância e intensidade de emoção. Pode ser assustador para muitos, mas está tudo bem, não há com o que se preocupar. A Carol se foi, temos que nos dar ao direito de sentir essa falta, mas também de acreditar no que de bom se apresenta pouco a pouco.

É um clichê, mas a vida continua. Faço minhas as palavras de uma das mães citadas no texto, que eu enxergo ter motivos ainda maiores que  os meus para se sentir nocauteada pela vida: “Antes eu perguntava: Por quê meu filho?. Hoje eu pergunto: Quem sou eu para não ser comigo?”.

Pequenos traumas

fevereiro 6, 2010 por pensandonacarol

Hoje, no mini-tour de compras que fiz aqui em Buenos Aires, passei na frente de várias lojas onde comprei coisas para a Carol. Parei na frente de cada uma delas e lembrei dos momentos felizes que passei aqui, praticamente há um ano atrás. Apesar de tentar, não consegui entrar em nenhuma delas. Acho que ainda terei que voltar aqui.

No mais, missão cumprida e agora é empacotar as coisas e voltar para casa. Como sempre nunca, a melhor parte da viagem.

Reflexões em um sábado chuvoso

fevereiro 6, 2010 por pensandonacarol

Parece que em um piscar de olhos consigo voltar ao início de 2009, às vésperas do Carnaval, quando senti os primeiros sintomas.  O tempo correu rápido demais, mas alguns detalhes ficaram frescos na memória. Pena que não dei o devido valor aos momentos no tempo real em que os vivi. Postar minhas reflexões neste espaço é uma forma de exercitar a cabeça e colocar os pés no chão.

A ida repentina da Carol lá pra cima foi uma grande peça que a vida nos pregou. Nada que apague os meses em que estivemos juntos, nós três, e a certeza, mesmo que tardia, de que eles foram vividos plenamente. De certa forma essa certeza me aproxima das lembranças felizes e afasta a mágoa do meu coração.

5 meses sem a Carol

fevereiro 5, 2010 por pensandonacarol

Foi uma semana de emoções à flor da pele. Estou segurando as pontas com firmeza, mas há momentos que a gente fraqueja, ainda mais quando o calendário aponta para as lembranças. São 5 meses sem a Carol, apesar de que às vezes parece já ser algo tão distante de mim. Essa sensação de ser mãe, em compensação, a cada dia está mais forte. Não sei se é assim que tinha que ser, nem espero maiores explicações.

A promessa que faço é daqui por diante deixar a experiência me mudar, sem pressa e sem culpa.

In My Life

fevereiro 5, 2010 por pensandonacarol

Neste aniversário de casamento, uma música especial de presente.

O que eu estava fazendo em 04 de Fevereiro de 2007?

fevereiro 4, 2010 por pensandonacarol

Domingo, 04 de Fevereiro de 2007, Espaço Armazém, São Paulo

Começava ali uma nova etapa em nossas vidas. Nosso casamento foi maravilhoso: local perfeito, família e amigos presentes e muita alegria verdadeira. A lua-de-mel foi igualmente fantástica, e assim iniciamos nossa vida “oficialmente juntos”  depois de sete anos, um mês e dez dias de namoro.

Hoje, fazendo um balanço destes 3 anos de casado com a Paula, vejo que esta foi a melhor decisão que já tomei na minha vida. Se nem preciso falar de tantas coisas boas que fizemos e conquistamos, os momentos difíceis que passamos juntos só serviram para nos unir mais e fazer com que a nossa vontade de lutar pela felicidade do outro fosse multiplicada por infinito.

Com cada um em lugar distante, eu, a Paula e a Carol celebramos este dia isoladamente, mas com certeza que nossas vidas foram feitas para serem vividas juntas.

Rasteira

fevereiro 4, 2010 por pensandonacarol

Eu achei que já estava acostumada com os obstáculos que a vida me impôs quando tomei a maior de todas as rasteiras que me derrubaram ao longo dessa vida. A morte da Carol levou um pedaço do que eu era, tirou de mim a chance de finalmente enxergar um futuro sem pessimismo. Um dos motivos que me fez levantar quando não via motivos para isso foi fazer o que eu sei de melhor. E eis que acabo de levar outra rasteira, muito menor, daquelas que causa só arranhões, mas como eles ardem…

Me bateu uma tristeza tão forte, tão incontrolável, que a única coisa que consigo perguntar é por que até o que parece estar certo precisa sair de linha? Eu só queria colher os bons frutos pra variar.

Ouvi um comentário por telefone um pouco mais cedo sobre o blog: “ele é muito triste, ele me deixa triste quando o  leio”.  Eu respondi que era triste por ser resultado de uma situação triste. Me enganei. Ele é triste porque reflete o que nos tornamos como casal e individualmente depois da Carol. Não há crueldade maior do que ficar exposto à dor do outro.  

Esse é o efeito colateral para quem tem a sensibilidade de enxergar essa realidade tão de perto a ponto de notar que o mundo não descarrega o peso que ficou para nos poupar de um cansaço ainda maior nessa viagem sem a nossa filha. Pelo contário, ao longo do caminho vão sendo colocadas novas pedras para carregarmos na sacola.

Essas lágrimas de agora são em parte pela perda da Carol e também são pela perda de um dos desafios que me dão vontade de erguer a cabeça a cada manhã.  Estou toda ralada, caí de mau jeito, mas já levantei. Vamos em frente, sei que ao amanhecer vou reencontrar o prazer de olhar um horizonte de perspectivas positivas.

Família porteña

fevereiro 3, 2010 por pensandonacarol

Vir para a Argentina sempre foi um grande prazer para mim: dulce de leche, parrilla, amigos, Quilmes, Boca x River, compras em Palermo…e, depois que descobrimos que a Paula estava grávida, muitas coisas para a Carol. Mas minha  principal alegria quando venho para Buenos Aires é visitar três pessoas da família muito especiais: Bernardo, Samuel e Daniel.

Foi através deles que descobri que meu avô, de quem herdei meu nome, veio para a Argentina atrás de gente da família, mas sem saber onde procurar. Acabou encontrando seus primos Bernardo e  Samuel, irmãos que viviam aqui com uma parte da família. Deste encontro nasceu uma relação muito forte, com muitas viagens ao Brasil e à Argentina. Conheci os dois e o Daniel, filho do Bernardo, quando ainda era criança, e sempre que vim para a Argentina liguei para eles e os encontrei.

Encontrar-me com o Bernardo, um senhor de 81 anos que ainda dirige, joga tennis e dança tango, me traz lembranças do meu avô, que não pude conhecer mas sempre ouvi dizer o quanto ele era alegre, ativo e cuidava da família. Ontem passei na casa deles, comemos fideos em um restaurante italiano e conversamos muito sobre o Brasil, a Argentina e a família. Como sempre, não me deixaram pagar a conta, dizendo que meu avô nunca os deixou pagar nada quando estiveram com eles no Brasil.

É uma pena que a Carol não poderá conhecê-los, mas lá de cima ela está vendo uma família unida, mesmo que fisicamente distante.